Fundada em 2003, a Sociedade Brasileira de Enfermagem em Feridas e Estética (SOBENFeE) busca qualificar a assistência do enfermeiro no tratamento de feridas, trazendo autonomia e fomentando o aprimoramento no atendimento à população, além de estimular a interdisciplinaridade das ações. Nesta edição a revista HOSP entrevistou as enfermeiras Mara Blanck e Maria Celeste Dalia Barros, respectivamente presidente e vice-presidente da instituição, a respeito do tratamento, avanços e cuidados com as úlceras de decúbito.
HOSP: Falando especificamente em tratamento de feridas, principalmente as relacionadas à pressão, como estão os cuidados e novos trabalhos a respeito?
Mara e Celeste: As úlceras por pressão (UPPs), também conhecidas como úlcera de decúbito ou "escaras", representam risco para a vida das pessoas, podendo levar a óbito por septicemia, quando o paciente tem associadas doenças graves ou terminais. Além disso, tem sido motivo de preocupação por parte de profissionais da área de saúde e de questões legais para instituições e profissionais, com destaque para a enfermeira (o), pelo seu envolvimento direto no cuidado prestado a esses clientes. A prevenção das UPPs tem sido discutida incessantemente nos fóruns que congregam os profissionais que, no dia-a-dia, lidam com o sofrimento que elas causam. Não podemos deixar de falar sobre o aspecto econômico que elas representam para a instituição e os seguros de saúde, tendo em vista que seu tratamento, além de aumentar a permanência do paciente no hospital, onera em insumos e tempo dos profissionais. Pelo seu caráter emergente, percebemos uma preocupação mais ampla dos demais profissionais da área, como médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, envolvendo-se na formação de grupos e comissões nas suas instituições, que visam à criação de protocolos, à sistematização da assistência, com vistas à melhora dos cuidados prestados, tanto na prevenção como no tratamento.
HOSP: Navegando o portal da entidade, li um artigo interessante, falando que feridas têm "alma". Poderia comentar mais a respeito?
Mara e Celeste: Quem entra em nosso site observa este artigo escrito pelo médico Antonio Claudio Duarte, nutrólogo, nosso grande parceiro, que faz uma analogia da ferida com o desenvolvimento e transformações por quais passam a pele do ser humano. A ferida, assim como nós, após o seu nascimento, passa por diversas fases e dependendo de como a tratamos irá nos dar respostas positivas ou não, através do seu processo imunológico respondendo também no aspecto metabólico e emocional. Para isso ela precisa estar bem nutrida, bem cuidada e também "amada" como observamos na sua resposta na nossa avaliação quando ela se mostra um tecido granulado, brilhoso, com contrações de bordas caminhando para a fase de reparação. Se pensarmos quantos atores estão envolvidos nessa história, para que se tenha um final feliz (o que nem sempre acontece), devemos considerar a frase do dr. Antonio, quando ele diz que "uma FERIDA não é como uma lesão num corpo, mas como um corpo em FERIDA". Assim, as feridas se expressam a medida que "Sentem, sofrem e vivem e necessita também de quatro "Cs", mas com o seguinte significado:
- 1C = CONSCIÊNCIA do que vai tratar;
- 2C = COMPETÊNCIA de quem vai tratar;
- 3C = CERTEZA de que não é só uma lesão a mais a tratar e
- 4C = CARINHO total, físico e emocional a quem vai ser tratado, pois na verdade "TODA FERIDA TEM ALMA". Quem quiser ler mais sobre este assunto pode acessar nosso portal www.sobenfee.org.br.
HOSP: A imperícia dos profissionais da saúde pode ser causadora do surgimento das úlceras por pressão em pacientes hospitalizados?
Mara e Celeste: Falar de imperícia é falar de crime. Acreditamos que os profissionais sabem o que fazer, mais esbarram nas dificuldades encontradas para suas ações preventivas, como falta de recursos humanos, insumos e materiais, desconhecimento dos gestores na provisão e disponibilização dos recursos necessários à prática destes cuidados. Faz-se necessária uma sensibilização daquelas pessoas para que as UPPs deixem de ser uma conseqüência de cuidados inadequados.
HOSP: Atualmente quais os tipos de produtos mais recomendados para o tratamento?
Mara e Celeste: Temos hoje no mercado uma grande variedade de excelentes produtos para o tratamento de feridas; porém sua indicação correta é que fará com que haja um resultado eficaz no seu uso. Não podemos esquecer que a avaliação e os planos de cuidados pela enfermagem ainda são indispensáveis a esse cliente. A avaliação da ferida é uma etapa muito importante para a escolha do produto a ser utilizado pois, baseada em conhecimentos técnico-científicos, poderemos optar por um produto que será mais eficiente naquela fase de cicatrização. É importante também analisarmos custo e benefícios para continuidade dessa terapêutica tópica. Temos, por exemplo, os alginatos, hidrocolóides, filmes, hidropolímeros, membranas e suas associações como, por exemplo, com prata, sendo esse último utilizado para feridas colonizadas ou infectadas. Há também os hidrogéis, puros ou associados a alginatos ou anti-sépticos, como é o caso da poli-hexanida, além dos colágenos, fatores de crescimento, e tratamentos coadjuvantes como terapia a vácuo e oxigenoterapia hiperbárica.
HOSP: Se você pudesse listar uma série de dez cuidados para o tratamento de feridas, quais seriam?
Mara e Celeste:Podemos eleger:
1. Lavagem das mãos;
2. Limpeza adequada da ferida;
3. Utilização de técnica limpa ou técnica estéril dependendo do tipo de lesão;
4. Cumprimento das normas de biossegurança e precaução padrão;
5. Avaliação do paciente;
6. Avaliação da ferida - localização, tamanho, tipos de tecidos e exsudato, pele perilesional ou periestoma;
7. Realização de debridamento se necessário;
8. Escolha da cobertura primária e secundária, de acordo com avaliação da ferida;
9. Aplicação de escala de predição de risco para úlcera por pressão - Upps;
10. Registro e documentação das ações e resultados, bem como reavaliação periódica.
HOSP: Para 2009, está programada a segunda edição do Congresso Brasileiro para o Tratamento de Feridas, criado por vocês. Quais serão os principais temas e objetivos do evento?
Mara e Celeste: O II Congresso terá como tema "Feridas que falam, feridas que calam". Seguindo a mesma linha do primeiro, traremos temas que nos foram sugeridos pelos nossos associados e pelos participantes do congresso de 2007:
- Escalas de avaliação em feridas (inclusive em pediatria);
- PUCLAS 2 - ferramenta de estudos, desenvolvida pela EPUAP, de UPPs, especialmente no que diz respeito à sua classificação.
- Diabetes e pé diabético, feridas em oncologia, úlceras tropicais, entre outros temas.
Acontecerá, juntamente com o II Congresso Brasileiro, o II Congresso Ìberolatinoamericano, cuja primeira edição acontecerá em novembro deste ano, em Tarragona - Espanha (maiores informações no site: www.sobenfee.org.br).
HOSP: Comentários que deseja realizar:
Mara e Celeste:Para concluirmos, gostaríamos de retornar à pesquisa de prevalência citada anteriormente. Hoje estamos na fase do projeto em parceria com o Instituto de Pesquisa Evandro Chagas (IPEC - Fiocruz), que utilizará a metodologia adaptada, desenvolvida na Ilha da Madeira, Açores e Caná-rias. Após a conclusão e aprovação, o projeto piloto será desenvolvido em três hospitais federais. Depois da validação do instrumento utilizado, a pesquisa será desenvolvida em outras instituições federais, estaduais, municipais e particulares do Rio de Janeiro e posteriormente nos demais Estados.
Como recomendação, sugerimos às empresas que trabalham com equipamentos de alívio de pressão, como camas, colchões, e acessórios para prevenção de UPPs, que participem do II Congresso de Tratamento de Feridas em Salvador, em maio 2009 em Salvador-Bahia, através de simpósio satélites, permitindo ao público participante conhecer o que temos atualmente no mercado.