A longa permanência de pacientes em leitos de enfermarias e emergências pode provocar feridas, que, se não cuidadas de maneira adequada, são capazes de levar à morte. Além das causadas pela falta de mobilidade, que são chamadas úlceras por pressão, as lesões cutâneas podem surgir em conseqüência de acidentes ou doenças degenerativas . Todas elas são porta de entrada com riscos de infecção, aumentando o tempo de permanência do internado e os custos hospitalares.
De acordo com dados da Agência para Política e Pesquisa em Cuidados com a Saúde (Agency for Health Care Policy and Research), 50 milhões de pessoas em todo o mundo são portadoras de úlceras por pressão. O Grupo Nacional para o Estudo e Assistência em Úlceras por Pressão e Feridas Crônicas (GNEAUPP), instituição criada na Espanha, relaciona o aumento de casos ao envelhecimento da população mundial. A pele do idoso é mais suscetível às úlceras por ser mais seca e fina, portanto menos elástica. A incontinência urinária ou fecal, também comum na terceira idade, é outro fator que pode ocasionar aberturas na pele predispondo a feridas e infecções.
Entretanto, poderiam ser evitadas com simples medidas de prevenção, e, também, com a ajuda dos avanços tecnológicos. “São muitos os avanços nessa área nos últimos anos que permitem a prevenção e o tratamento dessas feridas, destaca Mara Blanck, coordenadora do curso de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Gama Filho e presidente da Sociedade Brasileira de Enfermagem em Feridas e Estética (SOBENFEE).
As úlceras por pressão, ou de decúbito, desenvolve-se quando o tecido mole é comprimido entre uma proeminência óssea(como o sacro) e uma superficie externa(como um colchão ou assento de cadeira) por um longo período. A pressão aplicada com grande intensidade durante um curto período ou com menos intensidade durante um período mais longo, diminui a irrigação sanguínea para rede capilar, prejudicando o fluxo sanguíneo para os tecidos circundantes e privando os tecidos de oxigênio e nutrientes.. Ocorrem principalmente em pessoas que tem uma dificuldade de mobilidade , como doentes que permanecem muito tempo na mesma posição, e também pacientes em cadeira de roda.
O tratamento de uma úlcera de decúbito é mais difícil e do que a sua prevenção. Essas feridas oferecem um perigo que é subestimado: a perda da sensibilidade cutânea em idosos ou diabéticos impede que elas sejam identificadas de imediato. Segundo a enfermeira Celeste Dália, vice-presidente da SOBENFEE, esse processo poderia ser evitado apenas mudando o paciente de posição, em pequenos intervalos no leito. Alguns decúbitos tornam-se desconfortáveis, o que pode ser solucionado por colchões redutores e aliviadores de pressão melhorando o impacto do peso do paciente e, com isso, não pressionam a região de apoio.
De acordo com a experiência de Gisele Lobato, enfermeira da Clínica São Vicente (RJ), a prevenção envolve muito menos custos do que o tratamento: “O tratamento requer tecnologia específica como laser de baixa potência, câmara hiperbárica ou coberturas, como por exemplo, à base de hidrocolóides, hidropolímeros, alginatos com prata, AGE, o Vac que exige conhecimento técnico e científico e conseqüentemente geram maiores custos. Já a prevenção consiste em métodos que não exigem tantos gastos, como nutrição adequada, mudança de decúbito ou dispositivos que aliviam a pressão como, por exemplo, suporte e acessórios de superfície como os de silicone”.
O alto custo impede que esses tratamentos estejam disponíveis para a maior parte da população. Por fim, os lasers são ferramentas coadjuvantes. O laser de baixa potência tem como efeitos o aumento da síntese de fibroblastos e colágeno,e facilita o retorno venoso linfático devido à ação vasodilatadora dos capilares. Além disso, tem poder antiinflamatório, analgésico e bactericida,contudo esta técnica ainda não se encontra disponível no Rio de Janeiro.É mister lembrar que as duas últimas técnicas citadas não possuem baixo custo e não estão à disposição da maior parte da população.
Outro método utilizado são os substitutos biológicos de pele, que formam uma barreira de proteção mecânica contra infecção e podem regenerar a derme, uma vez que proporcionam o crescimento celular e a síntese de colágeno. No entanto, de acordo com Lobato, o procedimento é raramente aplicado, pois é muito caro em comparação a outros produtos cicatrizantes. Atualmente há novas técnicas em estudo, como a que usa fatores de crescimento derivados de plaquetas humanas ou de hemácias bovinas e pesquisas com células-tronco, que também serviriam para construir uma nova pele saudável no local da ferida.
No Brasil, também vem sendo realizados estudos inovadores no tratamento de lesões. A Universidade Federal Fluminense (UFF) também tem um grupo de pesquisa que analisa o processo de cicatrização das feridas. “Há pesquisa científica, o que falta são investimentos na área de saúde”, afirma Blanck, uma das organizadoras do I Congresso Brasileiro de Tratamento de Feridas, realizado em maio, no Rio de Janeiro.
A sua grande preocupação também é a ausência de estudos epidemiológicos do real problema no Brasil e, em especial do Rio de Janeiro. Portanto, será realizado no Rio de Janeiro o primeiro estudo de prevalência em Úlceras por Pressão com a parceria da Universidade da Ilha da Madeira(Portugal) e o Grupo de Assessoramento de Estudos em Úlceras por Pressão e Feridas Crônicas da Espanha, na qual a SobenfeE é afiliada, e hospitais, universidades públicas e privadas do Rio de Janeiro, durante um ano para levantar qual será a dimensão do problema , com base deste resultado interferir com informação e cursos de capacitação para os profissionais de saúde, cuidadores e familiares.
Celeste Dália enfatiza, entretanto, que a tecnologia não substitui o cuidado. “A atenção dada pelo enfermeiro aumenta a auto-estima do paciente, logo, melhora seu sistema imunológico”, afirma. A cicatrização também depende de condições como o estado emocional do lesionado e a sua alimentação. Alimentos ricos em proteína (constituição do tecido epitelial e conjuntivo), em vitaminas A, E, K, zinco e carboidratos têm contribuição fundamental na regeneração das lesões. “As feridas querem se curar e o tratamento adequado é aquele não atrapalha o seu processo natural”, conclui Blanck.
Fonte:
REVISTA CIÊNCIAS HOJE |