11 de agosto de 2026
Biossegurança não é padrão ouro, é obrigatório.

Dra Karol Marotto
A busca acelerada pela padronização visual e pelo rejuvenescimento impulsionou o setor da estética avançada globalmente. Contudo, procedimentos minimamente invasivos muito populares, como toxina botulínica, bioestimuladores e ácido hialurônico, trazem consigo um aumento expressivo de complicações clínicas severas. Entre os eventos mais graves associados aos preenchedores faciais, destacam-se a oclusão vascular — que pode culminar em necrose tecidual e cegueira irreversível —, além de infecções, granulomas e formação de biofilmes. Tais ocorrências não provocam apenas danos físicos graves; desencadeiam ansiedade, depressão, estigmatização, afastamento do trabalho e sobrecarga nos serviços de saúde.
Diante dessa vulnerabilidade, o conceito de biossegurança necessita de uma reformulação urgente no ecossistema estético: ela não deve ser vista como um diferencial nobre ("padrão ouro"), mas sim como o requisito mínimo e inegociável de funcionamento. A prevalência de episódios infecciosos decorre, em grande parte, da execução de procedimentos por profissionais sem capacitação apropriada, da negligência na anamnese prévia, do uso de produtos não certificados e da ausência de ambientes adequadamente higienizados.
A contenção de riscos exige a incorporação contínua de evidências científicas e a regulamentação estrita da prática clínica. Um dos pilares recomendados pela literatura para elevar a previsibilidade e a segurança nesses tratamentos é o plano atualizado de 10 pontos (Heydenrych et al., 2021), o qual categoriza e analisa sistematicamente as intercorrências com base em fatores inerentes ao paciente, ao produto e ao procedimento executado. Ademais, a literatura reforça a prioridade absoluta de intervenção rápida diante de uma vascularização comprometida, aplicando protocolos imediatos de hialuronidase para minimizar sequelas permanentes.
Para alinhar os consultórios às exigências contemporâneas, torna-se essencial adaptar o Protocolo de Segurança do Paciente da Organização Mundial da Saúde (OMS) à realidade da estética avançada. Essa adaptação pressupõe:
· Identificação correta do paciente e rigor na anamnese: Avaliação criteriosa da história patológica pregressa, alergias e contraindicações.
· Comunicação efetiva e consentimento livre e esclarecido: Apresentação clara de riscos e alinhamento de expectativas antes da aplicação.
· Procedimento seguro e local correto: Análise clínica da anatomia vascular, marcação técnica rigorosa e auditoria do insumo utilizado.
· Higiene das mãos, antissepsia e assepsia rigorosa: Cumprimento irrestrito das normas de controle de infecção e biossegurança.
· Prevenção de danos e preparo para emergências: Treinamento obrigatório em Suporte Básico de Vida (SBV) e prontidão para o manejo imediato de reações adversas e oclusões vasculares.
A mitigação dos impactos clínicos e sociais na estética exige uma postura ética coletiva. A biossegurança irrestrita, somada à instrução continuada e ao uso exclusivo de insumos validados pelas autoridades regulatórias, é a única garantia para salvaguardar a saúde e a integridade dos pacientes.
Referências
HEYDENRYCH, I. et al. The 10-Point Plan 2021: updated concepts for improved procedural safety during facial filler treatments. Clinical, Cosmetic and Investigational Dermatology, v. 14, p. 1601-1614, 2021. DOI: 10.2147/CCID.S346299. PMID: 34276222.
TONACO, F. O.; MATIAS, H. K. Tratamento de necrose nasal por preenchimento com ácido hialurônico. Journal of Multidisciplinary Dentistry, v. 10, n. 3, p. 125-130, 2022. DOI: 10.46875/jmd.v10i3.537.
PEREIRA, B. P., et al. Complicações Estéticas relacionadas ao uso de PMMA em Procedimentos Estéticos. REVISTA FOCO, 18(11), e10731. 2025. https://doi.org/10.54751/revistafoco.v18n11-232.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). WHO Guidelines for Safe Surgery 2009: Safe Surgery Saves Lives. Geneva: World Health Organization, 2009. PMID: 9789241598552.
Dra Karol Marotto
Mestre em Saúde Digital - FCM/UERJ
Especialista em Saúde Estética e CardioIntensivismo
Coordenadora da CT do Coren-RJ
Professora e Mentora de Pós Graduações em Hof e Intercorrências
