22 de setembro de 2026
O Espelho Digital: O Papel da Enfermagem Diante da Epidemia Invisível do Transtorno Dismórfico Corporal

Dra. Sue Christine Siqueira Péclat¹ e Vinícius Vieira Pereira de Faria²
A contemporaneidade ressignificou a relação do indivíduo com sua própria imagem, mediada de forma quase obsessiva pelas telas dos smartphones. O que antes era restrito aos editoriais de moda hoje está democratizado nas mídias sociais, onde algoritmos personalizados e o uso indiscriminado de filtros de edição criaram padrões estéticos inalcançáveis. Esse cenário digital deixou de ser um mero espaço de entretenimento para se consolidar como um ambiente de vulnerabilidade psíquica, atuando como um potente gatilho para o Transtorno Dismórfico Corporal (TDC). O TDC, caracterizado pela preocupação patológica com falhas físicas mínimas ou imaginárias, encontra nas plataformas digitais um terreno fértil para a comparação social constante e a insatisfação crônica. Assim, a busca pelo "eu idealizado" das redes sociais transcende a vaidade e se estabelece como um problema urgente de saúde pública.
Ao analisar a dinâmica das plataformas como Instagram e TikTok, percebe-se que a exposição contínua (muitas vezes variando de duas a seis horas diárias) exacerba a distorção da autoimagem. Pacientes afetados passam a preterir sua aparência real em favor de uma identidade digitalizada, utilizando suas próprias fotos manipuladas por inteligência artificial como parâmetro para intervenções clínicas. Essa busca incessante por procedimentos estéticos, com o intuito de corrigir defeitos percebidos de ordem puramente psicossocial, mascara o sofrimento severo, o isolamento e, em casos graves, altas taxas de ideação suicida. Portanto, o comportamento do usuário nas redes não apenas intensifica a psicopatologia, mas também desafia a prática clínica ao gerar expectativas cirúrgicas e dermatológicas completamente irreais.
Dentro dessa complexa conjuntura, o público jovem desponta como o grupo de maior fragilidade, com um recorte estatístico acentuado no gênero feminino devido às pressões socioculturais ligadas à magreza e à perfeição facial. Contudo, o fenômeno manifesta-se também de maneira alarmante entre os homens por meio da Dismorfia Muscular (DM), um subtipo do TDC focado na busca obsessiva pela hipertrofia. Impulsionados por conteúdos voltados a dietas restritivas e corpos excessivamente musculosos, muitos jovens recorrem ao uso prejudicial de substâncias ergogênicas e ao abuso de álcool como mecanismos de enfrentamento para a angústia mental. Esse panorama exige que os profissionais de saúde compreendam as especificidades de gênero e idade para desenhar estratégias de triagem eficazes.
Frente a essa realidade, o enfermeiro — sobretudo aquele inserido na área da Enfermagem Estética e na Atenção Primária — posiciona-se como um sentinela estratégico na identificação precoce do TDC. A prática da enfermagem estética não pode se limitar à aplicação mecânica de injetáveis; ela exige um olhar clínico rigoroso, ético e humanizado para diferenciar o desejo genuíno de autocuidado de uma manifestação psicopatológica. A utilização de ferramentas e questionários validados na consulta de enfermagem, como o Body Dysmorphic Disorder Questionnaire (BDDQ), torna-se indispensável para rastrear a dismorfia antes que procedimentos desnecessários e potencialmente danosos sejam realizados. Mitigar o sofrimento do paciente requer o reconhecimento de que a agulha não corrige distorções que têm origem na mente.
Conclui-se que o enfrentamento ao impacto das mídias sociais na autopercepção corporal demanda uma atuação interdisciplinar, onde a enfermagem desempenha um papel educativo e assistencial fundamental. É urgente que a formação profissional incorpore o debate sobre a Prática Baseada em Evidências ligada à saúde mental e que os enfermeiros estimulem estratégias de alfabetização digital e intervenções de apoio, como o encaminhamento à psicoterapia. O combate aos efeitos nocivos dos algoritmos na saúde mental coletiva requer responsabilidade técnica e sensibilidade clínica. Somente por meio de uma assistência que enxergue o indivíduo além do filtro digital seremos capazes de promover uma saúde estética que seja, essencialmente, sinônimo de bem-estar integral.
Referências
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Dra. Sue Christine Siqueira Péclat¹ e Vinícius Vieira Pereira de Faria²
¹ Dra. Sue Christine Siqueira Péclat
Enfermeira – Coren Go 170.437
Fonoaudióloga – CRFa 5 -14009
Doutora em Ciências da Saúde/UFG;
Mestre em Atenção à Saúde/PUC-GO;
Especialista em Estética Avançada e Clínica;
Residência em Estética Avançada para Enfermeiros pela CTA/SP com certificação internacional;
Docente universitária desde 2009;
Docente de curso de pós-graduação em Estética Avançada facial e corporal;
Membro diretoria SOBENFEE
Palestrante nas áreas de empreendedorismo e estética facial
² Vinícius Vieira Pereira de Faria
Acadêmico do Curso de Enfermagem UNIEGO (Centro Universitário Evangélico de Goianésia).
