7 de abril de 2026
Avaliação clínica em pessoas de pele preta é estratégica para prevenir feridas e reduzir desigualdades em saúde
Enfa. Amanda Cibele Gaspar
A avaliação eficaz da pele é um dos pilares da prevenção de feridas. No entanto, quando se trata de pessoas de pele preta, falhas no reconhecimento precoce de sinais clínicos ainda são frequentes — e podem resultar em diagnósticos tardios, agravamento de lesões e aumento de complicações evitáveis. Assim alertamos a importância da adaptação ao olhar clínico às especificidades da pele preta não é apenas uma questão técnica, mas um compromisso ético com a equidade em saúde.
Quando o sinal não é vermelho
Grande parte dos protocolos clássicos de avaliação de feridas foi construída a partir de referências visuais em peles claras, nas quais sinais como eritema e rubor são facilmente identificáveis. Em peles pretas, porém, o eritema pode não se apresentar de forma visível, exigindo do profissional uma abordagem mais criteriosa.
“Nessas pessoas, alterações como calor local, edema, endurecimento, dor à palpação e mudanças na textura da pele são, muitas vezes, os primeiros indícios de sofrimento tecidual”, explica. A desconsideração desses sinais pode atrasar intervenções fundamentais, sobretudo na prevenção de lesões por pressão.
Risco ampliado e prevenção fragilizada
Estudos apontam que pessoas negras apresentam maior risco de desenvolver lesões por pressão em estágios avançados, justamente pela dificuldade de identificação precoce. A avaliação ineficaz compromete a prevenção, impacta o tempo de cicatrização e aumenta custos assistenciais, além de expor fragilidades estruturais no cuidado.
No contexto do Sistema Único de Saúde, onde a maioria da população atendida é negra, essa lacuna se torna ainda mais relevante. A ausência de capacitação específica e de materiais educativos que contemplem diferentes tons de pele contribui para a perpetuação das iniquidades.
Avaliar melhor é cuidar melhor
A avaliação eficaz da pessoa de pele preta envolve mais do que observação visual. Requer:
Inspeção cuidadosa sob boa iluminação;
Palpação sistemática para identificação de calor, edema e induração;
Avaliação da sensibilidade e da dor;
Atenção a áreas de proeminências ósseas e regiões submetidas à pressão, fricção ou cisalhamento;
Registro clínico detalhado e contínuo.
Além disso, a educação permanente das equipes de saúde é apontada como estratégia-chave para transformar a prática assistencial. Incluir imagens, casos clínicos e critérios específicos para peles pretas nos treinamentos melhora a acurácia diagnóstica e fortalece a prevenção.
Equidade como princípio do cuidado
Para especialistas, reconhecer as especificidades da pele preta é um passo fundamental para a promoção da equidade. “Não se trata de criar protocolos paralelos, mas de qualificar os existentes para que atendam todas as pessoas de forma segura e justa”, reforça a profissional.
O Ministério da Saúde já reconhece a equidade racial como diretriz das políticas públicas, mas a aplicação prática desse princípio depende diretamente do preparo técnico e da sensibilidade dos profissionais de saúde no cotidiano assistencial.
Um chamado à prática baseada em justiça
A prevenção de feridas começa na avaliação — e avaliar bem exige conhecimento, treinamento e consciência crítica. Investir na capacitação para avaliação da pele preta é reduzir desigualdades, evitar sofrimento e promover um cuidado mais humano, seguro e baseado em justiça social.
Em um país marcado pela diversidade, cuidar bem significa, necessariamente, saber avaliar todas as peles.
Enfa. Amanda Cibele Gaspar
